Ruben Abovian











O pintor nasceu na Arménia.

Manuel de Freitas

A verdade, por muito que nos custe,
é que nunca houve ninguém
por detrás da janela
do ponto mais alto da montanha.

Se é que podemos falar
de montanha, da janela onde
por vezes chegavam,
os sinos indolentes do amor,
na sua claríssima estranheza.

E as coisas que nos matam,
incendeiam-se,
cansadas de esperar por outro dia.

mia couto

      Pois lhe digo, minha Dona. É uma pena a senhora andar por aí fatigando seus olhos pelo mundo. Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga. Sabe o que se faz? Estende-se aí na areia, oblonga-se deitadinha, estica a alma na diagonal. Depois, fica assim, caladita, rentinha ao chão, até sentir a terra se enamorar de si. Digo-lhe, Dona: quando ficamos calados, igual a uma pedra, acabamos por escutar os sotaques da terra. A senhora num certo momento, há-de ouvir um chão marinho, faz conta é um mar sob a pele do chão. Aproveita esse embalo, Dona Luarmina. Eu tiro vantagens desses silêncios submarinos. São eles que me fazem adormecer ainda hoje. Sou criança dele, do mar

Paul Éluard

Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

On a quiet street



      To launch the high quality TV channel TNT in Belgium someone placed a big red push button on an average Flemish square of an average Flemish town. A sign with the text "Push to add drama" invited people to use the button. Look what happened. Advertisers have already emptied reasonable strategies and started foolish ones.  

Rosalía de Castro

Dicen que no hablan las plantas, ni las fuentes, ni los pájaros,
Ni el onda con sus rumores, ni con su brillo los astros,
Lo dicen, pero no es cierto, pues siempre cuando yo paso,
De mí murmuran y exclaman:
— Ahí va la loca soñando
Con la eterna primavera de la vida y de los campos,
Y ya bien pronto, bien pronto, tendrá los cabellos canos,
Y ve temblando, aterida, que cubre la escarcha el prado.

— Hay canas en mi cabeza, hay en los prados escarcha,
Mas yo prosigo soñando, pobre, incurable sonámbula,
Con la eterna primavera de la vida que se apaga
Y la perenne frescura de los campos y las almas,
Aunque los unos se agostan y aunque las otras se abrasan.

Astros y fuentes y flores, no murmuréis de mis sueños,
Sin ellos, ¿cómo admiraros ni cómo vivir sin ellos?

  Dizem que as plantas não falam, nem as fontes, nem os pássaros,
  Nem as ondas com seus rumores, nem com seu brilho os astros.
  Dizem; mas não é verdade, pois que sempre, quando eu passo,
  De mim murmuram e exclamam:
  - Lá vai a louca, sonhando
  Com a eterna primavera da existência e dos campos,
  E já bem cedo, não tarda, terá os cabelos brancos,
  E vê tremendo, aterrada, cobrir a geada o prado.

  - Há brancas no meu cabelo, caiu nos prados a geada;
  mas continuo sonhando, pobre, incurável, sonâmbula,
  com a eterna primavera desta vida que se apaga,
  com a perene frescura das campinas e das almas,
  mesmo quando aquelas secam e quando estas se abrasam.

  Astros e fontes e flores! Não murmureis de que eu sonhe.
  Sem sonhos, como admirar-vos? Como, sem eles, viver?

  Tradução de Pedro da Silveira

Pedro Ruiz



Tela de pintor colombiano.

Hideo Tanaka



Um pintor japonês a descobrir.

Jentsje Popma - De Dreiging [The Threat]



A maior criação de Deus foi o mistério, depois a luz. O pintor é holandês. 

Pablo Neruda

Mal te deixo,
continuas em mim, cristalina
ou trémula,
ou inquieta, por mim mesmo ferida
ou cumulada de amor, quando os teus olhos
se fecham sobre o dom da vida
que sem cessar te entrego.

Meu amor,
encontrámo-nos,
sedentos, e bebemos
toda a nossa água e todo o nosso sangue,
encontrámo-nos,
com fome,
e mordemo-nos
como o fogo morde,
deixando-nos em ferida.

Mas espera-me.
Guarda a tua doçura.
Eu te darei uma rosa!

Torquato da Luz

Não procuro vantagem nem me interessa
tirar qualquer benefício
de te amar.
Apenas busco um ombro onde a cabeça
retome o exercício
de acreditar.

E não desejo outro ofício
em que me ocupar.

Elizabeth Mitchell - You are my flower



      Na tradição das canções que Woody Guthrie e Pete Seeger (e porque não José Barata Moura) escreveram para crianças, a Folkways pensou em não deixar morrer esse filão tão rico de afectos e consciencialização. As composições de Mitchell lembram "Put your finger in the air", "Tell me why oh why?" Os tempos são outros mas o dever de educar bem continua. Não vos deixaremos morrer Woody e Pete. Bem hajam.

  Deep in the heart of Winter
  Dreaming of the first day of Spring.

The sun comes up
The flowers bloom
The rain comes down
The flowers grow.

People dancing everywhere the sun comes up again.

Elizabeth Mitchell - John the Rabbit



Oh, John the Rabbit
Yes ma'am
Got a mighty habit
Yes ma'am
Jumpin' in my garden
Yes ma'am
Cuttin' down my cabbage
Yes ma'am
My sweet potato
Yes ma'am
My fresh tomato
Yes ma'am
And if I live
Yes ma'am
To see next fall
Yes ma'am
I ain't gonna have
Yes ma'am
No garden at all
No ma'am.

José Luís Peixoto

Fingir que está tudo bem:
o corpo rasgado e vestido com roupa passada a ferro,
rastos de chamas dentro do corpo,
gritos desesperados sob as conversas.

fingir que está tudo bem:
o sangue a ferver sob a pele igual aos dias antes de tudo,
tempestades de medo nos lábios a sorrir.
olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio
e chuva que não se pode dizer: amor e morte:

fingir que está tudo bem:
ter de sorrir: um oceano que nos queima,
um incêndio que nos afoga.

Daniel Faria

Precisava falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa
E do chão.

José Rui Teixeira

Conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo,
soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido,
dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno.

      Tarefa difícil Sr. José, facilitada pelo verbo 'parecer'.

Julie Heffernan








      Julie Heffernan é uma pintora a óleo cujos auto-retratos exuberantes são extraídos das imagens do seu subconsciente e repletos de referências à história da arte e à sua crescente preocupação com o meio ambiente. Heffernan cria paisagens surrealistas naturais intercaladas com construções, conflitos e aflições humanas. Ela convida-nos a testemunhar o drama que está a desenrolar-se nesses mundos à medida que se desprende do equilíbrio.

gil t. sousa



     

não te esqueças de me visitar. traz-me as fotografias de Veneza e aquele poema que me escreveste quando o nosso amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas vidas e no mundo.

havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem as mesmas manhãs de sábado. havemos de olhar os mesmos telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma maneira única e inesquecível.

eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre mesmo nos lugares mais altos.

O olho do arco-íris




      Na foto vemos um enorme arco-íris com uma lua pendurada nos céus de Ocean City, no estado americano de Maryland. A foto foi editada no reddit e houve debates com mais de 1.500 comentários sobre a veracidade da mesma. Alguém usou mesmo a matemática para tentar provar que a imagem era falsa, enquanto outros afirmavam que não. O que acha?

Vasco Gato

Claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos.
Mas podes arder. Para a tua temperatura sou mercúrio,
linhas de mão, lábio e sopro. Atravesso-te porque
me atravessas e onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da devolução.
Tu e eu à porta de um lugar que vai fechar tudo numa árvore.
Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda
a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a medida exacta do meu desejo.
Sou um animal. Necessito diariamente da transfusão de uma
enorme quantidade de calor. Tocas-me?

      Desculpe Sr. Vasco, se escrevi o seu nome com maiúscula.

vasco gato

hesito muito antes da palavra.
porque um precipício se abre nela
e não tem sentido, vibra apenas.
porque pode ser a morte
ou o nascimento para um lugar
de cores e fadas e barcos de sol.
porque me doem as mãos
cada vez que tento segurar
o mundo em traços redondos quadrados.

por isso te digo: hesito e morro e nasço.
e corro para a rua com a força de quem
vai anunciar gritar chamar dizer.
mas lá fora sorrio apenas
enquanto caminho para um banco
de jardim, devagarinho,
como se por um momento
eu soubesse o nome de tudo
e tudo tivesse o mesmo nome.

      sr. vasco gato, gosto da sua ars poetica.

The Moody Blues sing 'Voices In The Sky' and 'Nights In White Satin'



      O vídeo é irrelevante até ao minuto 1.45 (um espectáculo de TV é o que é). Depois, sem orquestra nem coros, os Moody Blues encantam com palavras, melodias simples e voz. Note-se o modo discreto como a flauta embeleza, como o baixo suporta o ritmo em harmonia e a dignidade do todo.

Bluebird, flying high
Tell me what you sing
If you could talk to me
What news would you bring
Of voices in the sky.

Nightingale, hovering high
Harmonize the wind
Darkness, your symphony
I can hear you sing
Of voices in the sky.

  Just what is happening to me
  I lie awake with the sound of the sea
  Calling to me.

Old man, passing by
Tell me what you sing
Though your voice be faint
I am listening
Voices in the sky.


Children with a skipping rope
Tell me what you sing
Play time is nearly gone
The bell's about to ring
Voices in the sky.

Philip Richard Morris - Vårens



      A tradução do título da tela é 'A Chegada da Primavera'. Hoje, apesar de ainda estarmos no inverno, o dia vestiu-se de primavera: a terra cheirou a renovada, o frio aqueceu-se, o vento descansou, era mais fácil sentir um poema, o verde perfumou-se e o sol não criou sombras nos rostos. Cada célula da alma agradeceu ao Criador.  

Marin Sorescu

Todos os museus têm medo de mim:
Sempre que fico o dia inteiro
Diante de um quadro
No dia seguinte anunciam
O desaparecimento desse quadro.

Todas as noites me apanham a roubar
Noutras partes do mundo,
Mas eu nem ligo
Às balas que me assobiam ao ouvido,
E aos cães-polícia que já conhecem
O cheiro das minhas pegadas
Melhor do que os namorados
O perfume da amada.

Falo em voz alta com as telas
Que põem em perigo a minha vida,
Penduro-as nas nuvens e nas árvores
E recuo para obter perspectiva.

Com os mestres “italianos” podes facilmente conversar.
Que ruído de cores!
É por isso que sou logo apanhado com eles,
Visto e ouvido de longe,
Como se tivesse papagaios nos braços.

O mais difícil é roubar Rembrandt:
Estendes a mão e encontras a escuridão —
Ficas apavorado, os seus homens não têm corpo,
Apenas olhos fechados em adegas escuras.

As telas de Van Gogh são loucas,
Rolam e dão cambalhotas,
Tens de prendê-las bem
Com ambas as mãos,
Pois são sugadas por uma força lunar.

Não sei porque é que Breugel me faz chorar,
Não era mais velho do que eu,
Mas chamaram-lhe velho,
Porque sabia tudo quando morreu.

Procuro aprender com ele,
Mas não posso conter as lágrimas
Que escorrem nas molduras douradas
Quando fujo com as estações debaixo do braço.

Como vos disse, todas as noites
Roubo um quadro
Com uma perícia invejável.
Sendo o caminho muito longo,
Sou finalmente apanhado,
Chego a casa a altas horas,
Cansado e rasgado pelos cães
Trazendo comigo uma reprodução barata.

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