Arvo Pärt: Vater Unser





Vater unser im Himmel,
Pai Nosso que estais no céu
geheiligt werde Dein Name.
santificado seja o Teu nome
Dein Reich komme.
Venha o Teu Reino.
Dein Wille geschehe, wie im Himmel so auf Erden.
Seja feita a Tua vontade, no céu como na terra
Unser tägliches Brot gib uns heute.
Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia.
Und vergib uns unsere Schuld,
E perdoa as nossas culpas,
wie auch wir vergeben unseren Schuldigern.
assim como também nós perdoamos a quem nos ofende.
Und führe uns nicht in Versuchung,
e não nos guies pelos caminhos da tentação,
sondern erlöse uns von dem Bösen.
mas livra-nos do mal.

      A oração do Pai Nosso por um elemento da Escolania de Montserrat: Lluís Travesset.

Jorge Espina

Há um lago em Central Park,
ao pé de Central Park South,
e aí os patos interrogam os peixes:
Vocês sabem para onde foi Salinger?
Quem?
Salinger. Fazem ideia onde é que se meteu?
Os peixes não são maus tipos, mas têm pouca paciência.
Como diabo quereis que nós saibamos?
Como haveríamos de saber uma estupidez desse género?
E os patos voam sobre o lago em busca de Salinger
mas nem rasto, de Salinger, ninguém sabe nada.

Tradução A.M.

      A literatura americana tem vários livros perfeitos: o Huckleberry Finn, o Grande Gatsby, o Leaves of Grass e o The Catcher in the Rye. Talvez o Sr. Salinger esteja à espera no centeio.

A.M.Pires Cabral - Fogo posto

E se eu acabasse por chegar à conclusão
de que - contrariamente a outras conclusões
a que também tenho chegado algumas vezes-
não existe ignição fora de mim?

Que o fogo sou eu mesmo que o trago de raiz
e o comunico à noite
- por simples contacto, como num
cigarro aceso se acende a outro cigarro.

Que farias, noite, se isto fosse assim?
Apagavas-te, submissa?
Continuavas a arder como se nada fosse?

(Pelo sim, pelo não, chamem os bombeiros.)

Carlo Crivelli - Santa Maria Maddalena, 1476






Alguns escritores e estudiosos contemporâneos, principalmente Margaret George, Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, autores do livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada (1982), e Dan Brown autor do romance O Código da Vinci (2003), narram Maria Madalena como uma apóstola, mulher de Cristo que teve com ele, inclusive, filhos. Nessas narrações, tais factos teriam sido escondidos por revisionistas cristãos que teriam alterado os Evangelhos.
Estes escritores teriam baseado as suas afirmações nos Evangelhos Canónicos e nos livros apócrifos do Novo Testamento, além dos escritos gnósticos. Segundo os evangelhos aceites pela Igreja Católica, Jesus Cristo, o "filho de Deus", não veio à Terra para se casar e muito menos ter filhos. Portanto, para os preceitos desta Igreja, Maria Madalena não foi e nem poderia ter sido a esposa de Jesus Cristo.

Herberto Helder - As flores que devoram mel


As flores que devoram mel
ficam negras em frente dos espelhos.
Os animais que devoram estrelas em frente dos espelhos
ficam brancos por detrás dos pêlos
ou das plumas da idade.
As pedras por onde circula a água
ficam vivas de tanto cantar e, quando se voltam,
atingem a sua maior velocidade interior.
Se vêm às portas ver quem bate,
os lençóis cobrem-se de respiradoras —
quando regressam ao sono, deixam as mãos abertas.
Se é uma estátua que bate,
corre-lhe o sangue pela boca, e sobre os ombros
torcem-se os cabelos,
e as asas tremem em frente da porta.
Se é um retrato,
sorri sufocado pela noite adiante.
Os espelhos são negros como os jacintos
da loucura.
Os crimes que olham para o espelho têm uma vibração
silenciosa.
Se é uma criança, diz:
eu cá sou cor-de-laranja.
Porém às vezes é bom ser branco,
é bom estar deitado.
O mel faz bem às pedras,
atrai os olhos dos anjos.
Quem aplaina tábuas
acumula uma obscura sabedoria.
Olha para os espelhos,
tens um talento assimétrico de assassino.
Vê-se nos teus ramos frutos negros
contra a paisagem móvel.
Se fosses um peixe,
a porta estaria nas águas mais íntimas, frias, límpidas
e caladas.
E não batias — cantavas a tua síncope
terrível.
Nada se veria na vertente do espelho.
Serias como uma máquina cor de cal
respirando.
Por isso te ofereço este ramo de lâminas
e um fato de perfil — e andas nos labirintos.
Por isso te sento numa cadeira de ar.
Por isso somos os dois um quadrúpede de seda
de uma beleza truculenta.
Temos toda a vigília para encher de silêncios.
Pensamos os dois o mesmo corpo inaugurado.
As flores que devoram mel tornam negros
os espelhos.
As colinas vão olhando, e tremem na nossa carne
as estampas de ouro
extenuante.
Por isso, por isso, por isso —
somos assim
obscuros.

      Quando os nossos cachimbos de Magritte se relacionam com os outros, os verdadeiros.

Bénédicte Houart


pus-me a escrever um poema que
fosse tal e qual uma pedra e
acertasse sempre no que
eu bem quisesse
se parti alguma coisa, pois
não faço ideia
o que garanto é que
não fui multada
até recebi direitos de autor
ainda que injustamente
a pedra era obviamente um plágio
quanto ao poema, quem sabe.

      Certo estado em que se encontra alguma "arte" contemporânea.

No meu jardim - Poema de Miguel Torga


Cristovam Pavia (1933-1968) - Mistério


Eu estou em ti quando me esqueces.
E tu em mim, gota no cálice,
Quando adormeces sossegada.

Quando adormeces, sossegada,
O teu olhar vai nos meus olhos
Poisar em tudo que não vejo.

E quando sonhas (nunca o saibas!)
Sou eu que volto à minha infância
Que dorme em ti - gota no cálice.

      Poema para o qual criei uma melodia simples em Rem.

Alexander Search - Quem Sonha Mais?


Quem sonha mais, vais-me dizer —
Aquele que vê o mundo acertado
Ou o que em sonhos se foi perder?

O que é verdadeiro? O que mais será —
A mentira que há na realidade
Ou a mentira que em sonhos está?

Quem está da verdade mais distanciado —
Aquele que em sombra vê a verdade
Ou o que vê o sonho iluminado?

A pessoa que é um bom conviva, ou esta?
A que se sente um estranho na festa?

in, Poesia

Antonio Canova - Psyché et l'Amour











A figura de Psique foi abordada várias vezes por Antonio Canova, seja isoladamente, seja em conjunto com o seu companheiro mitológico Eros, também conhecido por Cupido. Entre as mais celebrizadas está esta, de 1793, hoje no Museu do Louvre. A obra capta o momento em que Eros ajuda Psique a voltar à vida com um beijo, depois de ela ter bebido uma poção mágica que a lançara num sono eterno.
Psique era uma princesa cuja extraordinária beleza não podia ser descrita com palavras humanas. Mesmo assim, Psique era uma menina triste: não conseguia arranjar namorado. Para piorar a sua situação, Vénus, a deusa da beleza, não gostou da concorrência com uma simples mortal e enviou o seu filho Cupido para que a fizesse apaixonar por um monstro. Acontece que Cupido acabou por se ferir com a própria flecha e apaixonou-se perdidamente pela princesa. Cupido, deus do amor e do desejo, que, unindo-se a Psique - ou seja, à alma - a faz imortal.  
São notáveis as grandes superfícies e a espessura surpreendentemente fina das asas de Eros, os pontos de apoio estrutural sabiamente escolhidos, e o gracioso mas formalmente ousado entrelaçamento das formas corporais, cuja fluência e suavidade aparecem tão naturais, escondem na verdade uma notável proeza em termos técnicos e o profundo entendimento do artista das capacidades expressivas do corpo humano.  In, Wikipedia

João Luís Barreto Guimarães - "A meias"


Bebo o meu café enquanto bebes
do meu café. Intriga-me que faças isso.
Se te posso pedir um
(se podes tomar um igual)
porque hás-de querer do meu?
Que
não. Que não queres. Escuso
de pedir
que não queres. Então
começo um cigarro e tu fumas
do meu cigarro dizes
«tenho quase a certeza de
não acabar um sozinha» por isso
fumas do meu.
Dá-te gozo esse roubar de
leves goles furtivos
dá gozo participar
do prazer que eu possa ter
contigo
(e entre nós)
dá-se agora tudo
a meias.

Fernanda de Castro - Urgente


Urgente! Compro por qualquer quantia,
pelo preço que for,
silêncio,
comprimidos de ar puro e de alegria,
se for possível, um pássaro e uma flor.

      Vê-se logo que um poeta não sabe lidar com dinheiro.

Jean-Luc Godard



Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard, 1965

Celso Emílio Ferreiro - O Profeta


Pouco antes de morrer
disse ele ao povo
Deus te dê ira,
que paciência tens de mais.

Maria Alberta Menéres - Queria dizer-te que não sei


Queria dizer-te que não sei
que há qualquer coisa
talvez desperdiçada talvez não
Tu sentiste-a disseste que era como
qualquer uma outra coisa que
esqueci
A tarde era talvez já fosse tarde
e a noite não vinha
─ como sempre
Queria dizer-te mas não sei se agora
me saberás ouvir.

Casimiro de Brito


Esta manhã não lavei os olhos -
pensei em ti.

Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.

Um fogo em luz transformado.
Subitamente, a sombra.

Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.

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