Joan Baez Induction Acceptance Speech - 2017 Rock Hall Inductions



      A mulher em quem Deus pôs na voz um pedaço de céu e se tornou um orgulho para a minha geração. Sobretudo, por não desistir de lutar por um mundo melhor.  

Alejandra Pizarnik - apenas um nome

alejandra alejandra
por baixo estou eu
alejandra

      O nome em nós.

Adília Lopes - Memórias

Quando tinha 12 anos, fumava Ritz, punha Eau Verte de Puig, ouvia Cat Stevens,
escrevia poemas num caderno cor-de-laranja comprado em Bruxelas.
Estava apaixonada e não era correspondida.

      Sra. Adília, eu ouvia o Nelson Ned e fazia lista de palavras bonitas: tangerina, âmago, chilrear, inusitado, titubear, pungente, tibieza...

Álvaro de Campos

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida…
Sou isso, enfim…
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

A. M. Pires Cabral

Se algum dia alguém chegar a ler
este dizer agreste,
provavelmente pensará: que pálida lanterna;
não é deste metal que a luz é feita.

Calma. Pois não.

Mas quem assiduamente
visita os desvãos onde a noite se acoita
não precisa de mais que o clarão desta treva,
desta cegueira sem cão e sem bengala,
para no escuro rasgar o seu caminho
e nele ir progredindo às arrecuas.

Anna Silivonchik











Alguns leitores do blogue devem estar cansados deste tipo de ilustrações. Eu tenho um fraquinho por elas. 

Cláudia R. Sampaio

Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas
novíssimas nuvens em pé.

in, ver no escuro, ed. tinta-da-china

Daniel Faria

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.

      Ah, Daniel... "Como é estrangeiro o sossego de quem não espera recado."

Rui Pires Cabral

Antes não nos pesava
o passado, colhíamos os dias
ainda verdes, a frescura da sua polpa
na vontade dos nossos dedos.
Depois vieram os sinais
dos primeiros cansaços sem remédio,
a noite fincou-se nas pedras,
fez-se de estorvos.
Aquilo que sobrou de ti
cabe-me nos bolsos
e é pouco para as minhas mãos.

     Os 'leftovers'.

Laura Cortese & the Dance Cards - Stockholm



A alegria despe-se nas ruas de Estocolmo.

Victor L - Ponte

Vem de longe o teu medo
em tão alta torre recolhido, tu dizes
que não sabes viver ao pé de ti, mas repara
na amplitude das pontes quando aceitas
os gritos que te cercam,
a tenebrosa noite.
Repara nos filhos que te dão à luz
pela permanência de uma pétala,
uma pétala apenas
da flor que recita o teu caminho.

    Urgem os milagres de cada dia.

Subversão

O conde von Metternich, ao ler um poema de Heine: «Excelente. Confisquem
todas as cópias imediatamente.»

     in, xilre

Adelino Ínsua - Se o teu olho é simples, todo o teu corpo será luminoso



Começa por atentar ao que se passa entre a urze e as abelhas
à doce árvore entre a terra e o céu.
Sobe às alturas das pedras nuas,
estão difíceis estes modernos tempos para a contemplação,
na rarefacção dos lugares teofânicos.
Toma nos lugares mais baixos a beleza
de uma azeitona no silêncio do meio-dia estival.
Contemplações insignificantes
contemplações mais magnificentes.
Depois deves numerá-las: a cerimónia.
Para que germinem no teu vaso de ouro
e sobre elas desça o orvalho e o perfume dos cedros.

     A oficina.

Marie Desbons








      Marie Desbons nasceu em Blois em 1981. Estudou artes plásticas e começou a trabalhar como designer gráfico numa agência de publicidade. Em 2007, decidiu embarcar no sonho antigo da ilustração. Rolos de papéis e tecidos, escovas, lápis, tesouras são as suas ferramentas de trabalho para imaginar ilustrações coloridas e poéticas.
      Hoje, mora em Brest e trabalha para La Marelle, uma editora de criações poéticas.

Hélder Moura Pereira - Quando paro à porta da antiga fábrica



Quando paro à porta da antiga fábrica
onde o meu avô trabalhou. Risca. Quando
a fábrica onde o meu avô trabalhou
surge de repente aos meus olhos,
sem eu a ter procurado, e. Risca.
Passam de repente nos meus olhos
muitas imagens, uma delas é a porta
da fábrica onde o meu avô trabalhou.
Ali me deu uma vez dez escudos para.
Risca. 
       É um poema num café. Dele
faz parte uma mesa de café e um café.
Depois olho pela janela do café
e não está lá fábrica nenhuma,
não está lá porta nenhuma, e também
sinceramente não tenho bem
a certeza de ser eu que estou aqui.
Mas o meu avô estava lá de certeza.

      Sr. Hélder, a musa foi com os outros.

Isabel Nogueira - Tirou do bolso o canivete

Tirou do bolso o canivete que a mãe lhe oferecera aos seis anos.
Acto naturalmente impróprio, a respeito do qual seria desnecessário ajuizar.
Abriu-o, passou ao de leve os dedos pela lâmina, e descascou a maçã.

Os olhos nunca saíam do barco. Nem do mar.
A prática fazia-o retirar a casca à fruta sem necessidade de olhar.

Era tudo uma questão de hábito e de motricidade fina.

      Um poema enorme. Os diabo continua a comprar almas em troca dos frutos da antiga árvore.

Paul Simon - Mrs. Robinson



      Mike Nichols inseriu a canção 'The Sound of Silence'  no filme 'The Graduate', com Dustin Hoffman e Anne Bancroft nos papéis do jovem Benjamin Braddock e da senhora Robinson, a mulher mais velha que o vai seduzir, antes de o ver perder-se de amores pela sua filha Elain.
      Necessitando de mais uma ou duas melodias, encomendou a Paul Simon dois originais para incluir na banda sonora. Simon e Garfunkel apresentaram-lhe 'Punky’s Dilemma' e 'Overs', mas, como Nichols não parecia nada convencido, Art disse a Paul: "Não lhe queres mostrar a 'Mrs. Robinson'?" 
      Perante a perplexidade do realizador – "Vocês têm uma canção chamada 'Mrs. Robinson' e não me diziam nada?" – Simon explicou-se: a canção não era para o filme. Era algo em que estavam a trabalhar e que ainda nem sequer tinha a letra completa. Ia ser sobre uma mulher e, por causa do ritmo, tinha de ter um nome com três sílabas. Costumavam cantar 'Mrs. Roosevelt', mas, agora, por causa da personagem do filme, brincavam e chamavam-lhe 'Mrs. Robinson'. 
      É claro que a coisa já não foi a mais lado nenhum e saltou direitinha para a fita. Como Simon ainda não tinha o poema completo, encheu a coisa com sons: "du, du-ru-ru du-du, du-ru-du du-du, du-ru-ru-ru", mas até disso Nichols gostou. Para já não falar do "hey, hey, hey", do "wow, wow, wow" e do "goo-goo-gajoob" (com que, neste caso, citavam 'I am the Walrus' do grupo de Liverpool). 

      in, Observador, Alexandre Borges

John Quincy Adams (1874-1933)



Pela sede, aprendemos as belezas da vida.

Maria Teresa Horta - Não pretendo mais do que o limite

Não pretendo mais do que o limite,
que para além do limite
já se entrega

Eu cumpro os meus
limites,
não cumprindo as regras.

Ronald de Carvalho - Sabedoria (1893-1935)

Enquanto disputam os doutores gravemente
sobre a natureza
do bem e do mal, do erro e da verdade,
do consciente e do inconsciente;
enquanto disputam os doutores sutilíssimos,
aproveita o momento!

Faze da tua realidade
uma obra de beleza

Só uma vez amadurece,
efêmero imprudente,
o cacho de uvas que o acaso te oferece.


      Reservemos a antiga escravatura para os doutores.

Oração

Poesia-nos, Senhor.

Amedeo Modigliani - Girl with a Polka-dot Blouse




Pensar causa dúvidas, e muitas. Resta-nos a serenidade de uma certa contemplação.

Raul Brandão

       "O que custa a largar na vida não é a esplêndida natureza, as grandes ideias, a luta ou as paixões – é o que fazemos todos os dias, é o hábito. Um médico meu conhecido do Porto, o Dr. Frias, acabou com estas palavras: – E os meus doentes? Que vai ser dos meus doentes? – Um pobre chefe de via e obras do caminho de ferro que eu conheci em Guimarães, só dizia: – A linha! Tenham cautela com a linha! – E a mim, uma das coisas que me vai custar a deixar são os meus papéis. A vida leva-nos e aturde-nos. Lutamos. Debatemo-nos. Mas quando chegamos no fim estamos todos docemente maníacos. O cúmulo é o caso acontecido com o Alfredo Guimarães, cuja vida se passou na constante preocupação do ‘bric-à-brac’ e que na agonia recomendava ainda:
       – Olhem lá se esses homens quando descerem com o meu caixão vão partir as jarras da Índia que estão no patamar da escada."

      in, Memórias

Alejandra Pizarnik - No teu aniversário

Recebe este rosto meu, mudo, mendigo.
Recebe este amor que te peço.
Recebe o que há em mim que és tu.

Ana Paula Esteves - sou eu

sussurro muito baixinho que gosto de ti. parece que não ouves, mas sentes. não é da voz que me saem as palavras, é da alma e de mansinho, é a alma feita voz, reivindicando a sua percentagem de condição humana. gosto de ti, e este gostar envolve-te em pedacinhos de algodão, beija-te na testa, tacteia o teu rosto, passeia as pontas dos dedos pela tua mão.

a minha alma hoje dá-se os direitos do corpo, e quando estiveres a dormir, vai enroscar-se nos teus braços, num aconchego morno. tu nem vais dar por ela, vais pensar que é um sonho e sorrir. sou eu.

Franzl Bayrischer gespielt von der Rinner Musi



      Tocar com a natureza para sentir a energia da terra, a serenidade fresca da brisa, a  intensidade da luz, a beleza do verde e o silêncio. Tudo isto com a disciplina alemã.

Raquel Serejo Martins

O poeta tem muitas dúvidas
não sabe se o que faz é poesia.
O poeta lê muitos poetas,
por isso tem dúvidas.
O poeta sabe pouco,
só sabe que sabe
(lembra a Luísa a subir a calçada),
fazer bolo de chocolate,
receita herdada da bisavó materna.
Um bolo negro, fundente,
mais do que al dente!
Um bolo que põe os comensais
a lamber os dedos com volúpia
e com apetite a pedir mais.
E depois de uma fatia de bolo de chocolate,
o poeta gosta de fumar um cigarro,
e enquanto fuma o seu cigarro,
é sempre assaltado pelos mesmos pensamentos,
Faz bolo de chocolate, poeta;
Faz bolo de chocolate!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão bolo de chocolate.

      Como versos para chocolate para gerar o poema.

Raquel Serejo Martins

Deixei o meu coração no forno,
é só aqueceres e tens jantar.
O que sobrar dá ao gato.
Eu sempre gostei do gato.

      É assim o melhor da conjugal-idade. Mas, sem coração, qualquer um de nós morre.

Vasco Gato

O barco impresso na areia.
O sal que,
pelo descuido que tudo infecta,
lhe vai rachando
a madeira.
Lentíssimas machadadas.
Lacónica realidade.

      O barco, Sr. Vasco, deve envelhecer e morrer à frente do mar. É a gratidão. 

Luís Felício

a casa a água anda em volta
alguém semeia uma pedra em cima da mesa
onde o pão derradeiramente floresce
alguém sabe que

todo o lugar se cria por desproporção elementar
dos seus elementos

uma paisagem que se nutre
da ausência mesma do seu próprio nome

(como o amor)


       Que poema bonito! A mutação lenta e secreta do que nos é mais importante. 

Taizé - Bless The Lord, my soul



Neste lugar reencontrei o fio de água de onde nasce o antigo rio.

Anna Berezovskaya












      Nascida na cidade de Yakhroma da região de Moscovo, as suas obras são únicas e facilmente reconhecíveis pelo seu estilo único a que chama Realismo poético. Cada um dos trabalhos é uma peça distinta e distintiva, sendo fio comum as fortes emoções e sentimentos que Berezovskaya tem imbuídas em cada um, inspirada pela cultura e literatura russa. 

Paulo Varela Gomes




      "A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem. Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso."

      in, Morrer é mais fácil do que parece. (A gravura é de John Keats por alguma razão.)

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