Toshio Ebine



No dia em que descobri a primeira cor do arco íris não mais descansei. 
Maravilhado, não parei depois da sétima. 

Cecília Meireles - É preciso não esquecer nada


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos connosco, pois o resto não nos pertence.

Johnny Cash & The Carter Family -We're You There, When They Crucified My Lord




      This is history. Johnny Cash joins The Carter Family for this 1962 Performance of a Classic Gospel Song, June Carter is there who later became his second wife. Many people say Dylan gave an important contribution to change the US popular music. The Carte family did it before in a different way. Sometimes memory is golden (even in black & white) beauty.

      Lyrics:

Were you there when they crucified my Lord?
Were you there when they crucified my Lord?
Oh, sometimes it causes me to tremble, tremble, tremble
Were you there when they crucified my Lord?

Were you there when they nailed him to the cross?
Were you there when they nailed him to the cross?
Oh, sometimes it causes me to tremble, tremble, tremble
Were you there when they nailed him to the cross?

Were you there when they laid him in the tomb?
Were you there when they laid him in the tomb?
Oh, sometimes it causes me to tremble, tremble, tremble
Were you there when they laid him in the tomb?

Were you there when the stone was rolled away?
Were you there when the stone was rolled away?
Oh, sometimes it causes me to tremble, tremble, tremble
Were you there when the stone was rolled away?

Daniel Hevier - Terra de gelo


A ideia
de que existe algures
um país como a Islândia

ajuda-me a sobreviver.

      Daniel Hevier é um dos poetas eslovacos mais conhecidos da sua geração. Nasceu em Bratislava, em 1955.

Daniel Hevier - Hamlet, louco como sempre


O Computador J.S. Bach
compõe música
para acompanhar anúncios televisivos
de poltronas anti-obesidade.

O Computador Leonardo
está a pintar o original mil e um
da Mona Lisa
enviando encomendas para os primeiros milionários
da lista de inscritos.

O Computador Hemingway
escreve memórias
para políticos arruinados.

O Computador Napoleão
está a preparar
materiais para uma nova variante
de guerra psicadélica.

O Computador Galileo
está a retraír a sua teoria
de um universo elástico.

O Computador Seneca
está a tratar com a ONU da questão das mulheres
e dos suicídios em massa
das baleias.

O Computador Adão
e o Computador Eva
estão a fazer novos computadores.

O Computador Hamlet
encravou,
e repete incessantemente
uma estranha pergunta sem sentido.

Daniel Hevier - Com o motor desligado


Ao atravessar a fronteira
entre
beleza e banalidade
sobressai um homem
cansado de inventar poemas.

Não tem nada a declarar
com a excepção de alguma
trivialidade inútil.

Daniel Hevier - O homem deu nome a todos os animais


O homem deu nome a todos os animais,
canta Bob Dylan
e eu tento nomear
tudo quanto tenho em mim:
todos esses
tigres,
lobos,
chacais,
serpentes,
gaviões,
pôneis,
babuínos,
crocodilos,
lagartos,
manadas de cavalos,
pombos.

Toda essa menagerie
conhecida como
o registo quase humano.

Jeff Faust
















      Há quem lhe chame o pintor Miró da Califórnia. Ele diz "I think that I’ve trained my mind, and perhaps not intentionally, to…wander in various ways and be open to using what I see or think. A bowl can spark all sorts of ideas, many a painting has been done after picking up a stick."

Herman de Coninck - A Rapariga


Tu própria, que podes ter a noção e ao mesmo tempo
o atrevimento de simplesmente expor
de vez em quando uma opinião
ou um seio: quando começa isso,

e no fundo quando acaba? As mulheres
são feitas de raparigas, aos quarenta
ainda deitam a língua de fora como aos quinze,
ficam cada vez mais jovens,

não sabem não seduzir. Como a poesia:
um gato que prudentemente caminha sobre as teclas
de um piano e olha para trás:
ouviste? viste-me?

Ah, o ar jovem das raparigas de quarenta,
como umas vezes querem, e outras não,
mas afinal sempre, se repararmos bem.
Onde estão os bons velhos tempos? Estão aqui, esses tempos.

      Nuno Júdice traduziu uma colectânea com o título “Os Hectares da Memória”. Herman de Coninck foi um dos mais importantes poetas flamengos do pós-guerra, por possuir uma notável capacidade de apreender do quotidiano aparentemente estéril e banal, instantes sagazmente luminosos, através do uso de uma linguagem com notável capacidade discursiva, onde o humor não é o menor dos seus recursos. Coninck morreu subitamente numa rua de Lisboa, em 1997, a caminho de uma reunião de poetas.

Franz Schubert - Der Lindenbaum by Jonas Kaufmann




    A Tília

Am Brunnen vor dem Tore
Junto ao poço do portão
da steht ein Lindenbaum
ergue-se uma tília
Ich träumt´ in seinem Schatten
Junto a ela embalei eu nas suas sombras
so manchen süßen Traum.
tantos sonhos doces.

Ich schnitt in seine Rinde
No seu tronco eu gravei
so manches liebe Wort
muitas palavras de amor
Es zog in Freud und Leide
Na dor e na alegria
zu ihm mich immer fort.
para ela sempre corri.

Ich musst` auch heute wandern
Hoje passei por ela
vorbei in tiefer Nacht
no meio da noite profunda
Da hab ich noch im Dunkeln
E mesmo na escuridão
die Augen zugemacht
tive que fechar os olhos.

Und seine Zweige rauschten
E os seus galhos sussurravam
als riefen sie mir zu
como se me chamassem:
"Komm her zu mir Geselle,
"Vem até aqui, amigo,
Ich wendete mich nicht".
aqui encontrarás a paz".

Nun bin ich manche Stunde 
Agora estou a muitas horas
entfernt von jenem Ort
de distância daquele lugar
Und immer hör ich rauschen:
mas continuo a ouvir o sussurro:
"Du fändest Ruhe dort!"
"Aqui você encontrará a paz!"

      A tradução é caseira, um pouco com a ajuda de outras traduções. A tília na Alemanha e na Áustria tem sido ao longo da história, a árvore do amor: o seu perfume, o zumbido das abelhas, a riqueza dos produtos dela provenientes, a casca e as flores tinham poderes sedativos e narcóticos, e ao mel eram atribuídas virtudes terapêuticas e aromáticas. Decerto, Schubert também encontrou aqui um pouco de paz.

Rikardo Arregi - Canta-me um dos Lieder de Schubert


Canta-me um dos Lieder de Schubert,
um dos mais tristes,
Tränenregen, ou Der Lindenbaum,
pleno de florestas desamparadas,
inchado de rios transparentes,
transbordando de amores impossíveis.

Toca ao piano suavemente
e canta-me o mais triste Lied.
Abre espaço para o pobre Franz
junto ao fogo.

E se te acontecer cantares a palavra Herz,
certifica-te que lhe dás expressão, a modulação que requer,
pensa que somos Românticos
circa mil oitocentos e vinte e sete
e que um de nós tem uma doença incurável e impronunciável.
Porque poucos irão compreender, alguma vez
a nossa coragem, a nossa beleza.

Carlos Queiroz - Canção grata

Por tudo o que me deste: — Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco…
Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
— Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado…
Sem ironia, amor: — Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

    O 'leftover' do amor.

Jon Raven - The Song of the Staffordshire Men (traditional English folk song)



Lyrics:

There's many a task for the English folk,
And a man's a man always,
Who delves the coal and iron ore,
And shapes the potters' clay.

For this is the song of the Staffordshire men,
In forge, in kiln, in mine.
Our fires shall burn, and our mill-wheels turn
And the Knot shall be our sign.

There are forty shires that light their fires,
And bless the iron strong,
And the china bake the potters make,
As they sing the Stafford song.

We come of a race of yeomen bold,
Whose drink is the best of beer;
Our fields feed beasts for the Christmas feast
And you may share our Staffordshire cheer.

We marshal our ranks on the grey pit banks
And our lads on the football field,
If the cause be right, we are game to fight,
We never were known to yield.

      From Jon Raven's album The Ballad of the Black Country, a tribute to the county which may not be England's most picturesque, but has always been the most honest and down to earth. (Historically, the Black Country was actually divided between Staffordshire and Worcestershire, and is now part of the administrative county of the West Midlands). The English culture at it's finest.

Maya Angelou




Your skin like dawn
Mine like musk

One paints the beginning
of a certain end.

The other, the end of a
sure beginning.

      Sweet Lady, your bird is still singing but outside the cage.

Maria Alberta Meneres



Por que não cai a noite, de uma vez?
– Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?
– Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)

Alvar Sunol Munoz-Ramos












Pintor catalão, nascido em 1937.

Francisco José Viegas

gostava de saber dizer-te como se vem de longe
num pincel de rembrandt desde os lugares do junco
ou da selva ou da água ou só do norte e da neve

e nos sentamos aqui sob o azul dos plátanos: um
murmúrio incessante do mover das aves

suave é esta a sabedoria
conhecer os instantes gomo a gomo como um fruto
ainda verde a querer despontar iluminar-se e colhê-lo
breve nos nossos dedos inteiro

e sob a nossa voz a nossa boca o nosso olhar
não estar nenhum rumor nenhum silêncio nenhum gesto

Ingmar Heytze - Segunda meditação



Alguém te sopra como se fosses um dente-de-leão.
Nua, flutuas no escuro e não sabes –
o que é a escuridão, ou a luz, ou tu, ou a existência.
E no entanto as sementes dançam à tua volta,
filamentos a caminho do nada. Talvez um caia em terra fofa.
A probabilidade de germinar é extraordinariamente pequena,
mas tudo flutua. Tudo junto és tu.

  Quando as palavras são maiores que a flor. Flor? Planta?

Pedro Mexia




    Nunca compreendi
    a caixa de costura.
    Testemunha muda
    de tardes e gerações,
    poder feminino
    sobre o útil, no fundo
    dos carrinhos e dos dedais
    devia haver
    a esperança.

    in, Duplo Império

Le sorbier de l'Oural - Ural rowan tree




      Historique de la chanson:

      Le sorbier de l’Oural  date de 1950. Il est interprété ici par le Chœur de l'Oural (film de 1969). Le Chœur des Cosaques de l'Oural est un groupe de chanteurs russes et ukrainiens ; leur but est de communiquer au monde le bien culturel de l'Église orthodoxe russe, mais également les chants et traditions du peuple russe.

      «Le sorbier de l’Oural est le prototype de la chanson populaire russe/soviétique de cette époque.(1950) Evgueni Rodyguine, Le compositeur de la mélodie est originaire d’Ekaterinbourg, ville qui s’appelait à l’époque, Sverdlovsk. Cette mélodie fut jugée par le directeur du cœur populaire de sverdlovsk où jouait Rodyguine, comme non représentative du folklore russe. Se regard puriste fut démentie par l’enjouement, d’abord en union soviétique, puis à travers le monde, que rencontra cette chanson qui fut traduite en plus de dix langues. Elle est un peu l’hymne de cette région du centre Oural, à la fois faite d’une magnifique nature, et d’un paysage fortement industrialisé. Evgueni Rodyguine a actuellement 80 ans et prend tous les jours sa voiture, y compris en hiver, pour aller se baigner au lac Chaptach. Il est question de lui confier la composition musicale de l’hymne de l’oblast’ de Sverdlovsk.»

Robert Marcy - File la laine





Dans la chanson de nos pères
Monsieur de Malbrough est mort
Si cétait un pauvre hère
On n'en dirait rien encore
Mais la dame à sa fenêtre
Pleurant sur son triste sort
Dans mille ans, deux mille peut-être
Se désolera encore.

  File la laine, filent les jours
  Garde ma peine et mon amour
  Livre d'images des rêves lourds
  Ouvre la page à l'éternel retour.

Hennins aux rubans de soie
Chansons bleues des troubadours
Regrets des festins de joie
Ou fleurs du jolie tambour
Dans la grande cheminée
S'étaint le feu du bonheur
Car la dame abandonée
Ne retrouvera son coeur.

Croisés des grandes batailles
Sachez vos lances manier
Ajustez cottes de mailles
Armures et boucliers
Si l'ennemi vous assaille
Gardez-vous de trépasser
Car derrière vos murailles
On attend sans se lasser.

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